Setembro de 2017

Desintoxicação da Culpa


O que é isto da culpa? De onde é que ela vem e como é aprendida? Por que razão fica connosco?

Em primeira instância é importante percebermos que a culpa, tal como todas as emoções, é necessária ao bom funcionamento de qualquer pessoa, sobretudo para orientar o nosso comportamento de forma consonante à situação que a despoletou 1.

No entanto, e se na maioria dos casos esta culpa surge de forma equilibrada e contextualizada, ela pode também ocupar grande parte do nosso espaço interior, e é aqui que importa perceber: afinal de que é feita esta culpa e a que é que ela está a responder?

A culpa, quando desadaptativa, pode ser vista como um pequeno fantasma que mora dentro de nós e que aos poucos vai tomando conta daquelas que são as nossas necessidades. Aos poucos, vamos dando por nós a responder a necessidades que não são as nossas 2, vamos percebendo que a diferença entre o que é nosso e o que é do outro vai ficando cada vez mais difusa e, com isso, vamos tomando responsabilidade por coisas que não nos pertencem. É este o principal sintoma da culpa – a responsabilização e essencialmente a responsabilização excessiva.

Quem nunca caiu no “erro” de se responsabilizar, ou pelo menos de se sentir responsável, por algo que não era da sua competência? Na vida podemos cruzar-nos com pessoas que, mais ou menos diretamente, nos transmitem esta sensação de culpa e que nos implicam constantemente numa experiência condicionada pelos nossos actos 2, não permitindo a aprendizagem ou a experiência de afeto como algo livre de amarras. E o problema surge exatamente quando nós próprios passamos a ver esta situação como “normal” e nos percebemos como merecedores desta culpa.



O que podemos então fazer para não deixar que a auto-culpabilização se torne o caminho mais fácil?

Como em tudo tem de haver um primeiro passo que, neste caso, passa essencialmente pela consciencialização de que, a certo ponto, o nosso funcionamento dito normal, passou a ser condicionado pela culpa (ex.: “não me devia estar a divertir”, “aquela pessoa vai deixar de gostar de mim se…”). A partir daqui, é importante fazer uma espécie de check up às nossas necessidades e perceber que partes nossas estão a ser negligenciadas e em função de quê (ex.: estou a atender às minhas expectativas ou às dos outros? Sinto-me realmente realizado?).

Para além disso, nas situações em que a culpa surge, importa também perceber até que ponto o controlo está do nosso lado, até porque muitas vezes os aspectos pelos quais nos responsabilizamos não estão de facto ao nosso alcance 3. Atenção, responsabilizarmo-nos é bom, mostra capacidade para reflectir sobre os nossos actos, quer eles sejam mais ou menos positivos. No entanto, também nós temos limitações/barreiras que não nos permitem controlar todos os fatores de uma determinada situação - e isso é legítimo.

Como terapeuta, mas também como ser humano que falha, o que aqui pretendo transmitir é sobretudo a importância da aceitação dessas falhas - elas fazem de mim humano - sem nunca esquecer a importância de aprender ou procurar em nós ferramentas que nos ajudem a superar alguns obstáculos. Por outro lado, também importa perceber que, por vezes, até por uma questão de proteção, é necessário mostrar ou impor aos outros certos limites, de forma a que possamos tomar conta da nossa liberdade e não ficar presos a amarras que não são, nem têm que ser, nossas!



Referências:

1- Barlow, D., Farchione, T., Fairholme, C., Ellard, K., Boisseau, C., Allen, L. & Ehrenreich-May, J. (2011). The unified protocol for transdiagnostic treatment of emotional disorders: Therapist guide (pp. 49-55). New York, NY: Oxford University Press.

2- Teyber, E. (1997). Interpersonal process in psychotherapy: a relational approach. Pacific Grove, Brooks/Cole Pub.

3- Barlow, D., Farchione, T., Fairholme, C., Ellard, K., Boisseau, C., Allen, L. & Ehrenreich-May, J. (2011). The unified protocol for transdiagnostic treatment of emotional disorders: Therapist guide (pp. 83-94). New York, NY: Oxford University Press.


Carolina Madaíl
Psicóloga NeuroAV



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