Maio de 2017

Fazer as pazes com o medo, é possível?


Ficaram a olhar de frente um para o outro, como se fossem dois velhos conhecidos que nunca se tinham visto. Então o João explicou ao medo porque tinha medo dele: Eu só tenho medo de ti, porque penso que tu não fazes parte de mim. Mas tu fazes parte de mim, como os meus ossos e os meus pulmões.
– "O pequeno livro dos medos", Sérgio Godinho


Tal como na história do João com o seu medo, também muitos de nós receamos ter que cruzar com os nossos medos e aceitar a ideia de que eles fazem, de facto, parte de nós.


O que é o medo? Há medo “bom” e medo “mau”?

O medo é uma reacção instintiva que permite cumprir uma função protetora e orientadora dos nossos comportamentos. Com isto, é importante perceber que o medo, tal como outras emoções, não deve ser entendido necessariamente como mau ou perigoso1. Para funcionarmos no mundo de forma adaptativa, precisamos de um leque de emoções variado que, em função de determinados momentos e contextos, se assumem como nossas aliadas.

O funcionamento desadaptativo começa quando estas emoções surgem descontextualizadas e nos impedem de explorar o mundo (exterior e interior), ocupando dentro de nós demasiado espaço.


Tenho medo de quê, afinal?

Nem sempre é fácil perceber a razão dos nossos medos - não temos apenas medo de coisas más, é também legítimo termos medo de coisas boas. Por vezes sentimo-nos aprisionados nas amarras de algo a que não conseguimos dar nome, esses são os nossos medos, as nossas inseguranças, que podem passar pelo medo da autodescoberta, da mudança, de ficarmos sozinhos ou de não sermos aceites.


É possível fazer as pazes com os meus medos?

Quando não nos entristecemos acabamos por nos deprimir; quando não nos permitimos ter medo, acabamos por entrar em pânico 2.

O medo não desaparece até que lhe demos alguma atenção. No entanto, nem sempre é fácil darmos este passo sozinhos, é também importante que possamos ser acolhidos nos nossos medos. O apoio psicológico permite:

  1. Estabelecer um ambiente de segurança e aceitação em relação à pessoa e aos seus medos.
  2. Apoiar e facilitar a exploração de sensações, pensamentos, entre outros.
  3. Desconstruir a história e a função da sintomatologia.
  4. Explorar o medo no presente: Que espaço ocupa dentro de si? Limita a vivência de experiências novas?
  5. Não eliminar, mas reassegurar o equilíbrio na relação entre a pessoa e os seus medos.

Fica cá dentro e encontra um canto para sentares. Mas cuidado: de cada vez que começares a abusar, vai haver guerra. Vou saltar, correr, espernear, lutar, falar, responder, perguntar, ou, muito simplesmente, pensar.



Referências:

1- Barlow, D., Farchione, T., Fairholme, C., Ellard, K., Boisseau, C., Allen, L. & Ehrenreich-May, J. (2011). The unified protocol for transdiagnostic treatment of emotional disorders: Therapist guide. New York, NY: Oxford University Press.

2- Vasco, A. (2013). Sinto, penso, logo existo!: Abordagem Integrativa das Emoções. Revista de Psiquiatria do Hospital Prof. Doutor Fernando Pessoa, EPE. 11(1):37-44.


Carolina Madaíl
Psicóloga NeuroAV



Ver mais artigos

Início | Serviços | Profissionais | Mapa do Site | Preçário | Contactos


© 2017 NeuroAV. Todos os direitos reservados.


Designed and created by João Monteiro.