Agosto de 2016

OH NÃO!! A BIRRA TOMOU CONTA DO MEU FILHO…


Um dos aspetos mais prazerosos da parentalidade é poder ver a criança desenvolver todas as suas potencialidades6. Contudo, ao serem confrontadas com exigências e regras as crianças podem, muitas vezes, reagir com birras10.

As birras são a forma que a criança tem de expressar as suas emoções e receios quando ainda não consegue regular os seus impulsos emocionais2. As birras envolvem a expressão de duas emoções independentes, mas sobrepostas: a raiva e a angústia. A raiva envolve a manifestação de comportamentos como gritar, pontapear, atirar objetos, empurrar, entre outros. A angústia associa-se a comportamentos como o choramingar, bem como procurar o conforto e deixar-se cair para o chão, sendo que estes últimos comportamentos têm tendência a aumentar ao longo da birra.


Em que idade acontecem?

As birras geralmente têm diferentes formas de acordo com a idade da criança. Numa idade mais precoce a criança manifesta comportamentos como, por exemplo, atirar-se ao chão, chorar, gritar, berrar. Em crianças com mais idade pode acontecer, por exemplo, atirar objetos para o chão.

As birras são normalmente um fenómeno comum entre os 2 e os 4 anos e vão diminuindo à medida que a criança cresce e aprende maneiras mais elaboradas para lidar com a frustração e com as figuras de autoridade7.


Quando surgem?

Na hora da refeição (não quer determinado alimento ou quer comer noutro sítio); em ambientes com muitas pessoas e confusão (por exemplo, em centros comerciais); na hora de dormir ou quando a criança tem sono (porque tem medo do escuro ou porque quer continuar a brincar); ao final do dia quando se sente cansada; quando não lhe é dado o que quer;…5


O que os pais podem fazer?

Os pais devem responder de uma forma serena, empática e assertiva, mas ao mesmo tempo firme. Explicar à criança os motivos pelos quais a sua vontade não pode ser satisfeita. Em momento algum a criança deve conseguir o que quer por ter feito uma birra, pois é entendido por parte da criança como uma recompensa ao seu comportamento (quando na verdade o que se quer é mostrar que aquele comportamento não é aceitável)9. Deve levar-se a criança para um local sem espectadores onde se possa conversar. Por outro lado, as birras de pequena dimensão, que não expressam níveis elevados de agressividade, deverão ser “ignoradas” até que se extingam. Devem avaliar-se os comportamentos que poderão ser mais fáceis de modificar, para que a criança perceba os aspetos positivos da sua mudança.

Um fator de manutenção das birras é a inconsistência parental na imposição dos limites. É importante que o mesmo comportamento em momentos diferentes seja tratado de igual forma. Devem manter-se rotinas mais ou menos estáveis para que a criança adquira hábitos, tais como, lavar os dentes, ir para a cama a determinada hora, entre outros. Deve permitir-se que a criança faça pequenas escolhas, por exemplo dar duas opções de peças de roupa para que a criança possa escolher.

É importante que os pais passem algum tempo útil com os filhos, sem interrupções, para que a criança sinta que não precisa de fazer birras para chamar a atenção. Os pais devem lembrar-se que por um lado são o modelo de comportamento das crianças e, por outro, são quem lhes ensina os limites de regras e limites sociais5.


Quando procurar ajuda profissional?

Como referido anteriormente existe uma idade em que as birras são manifestações normativas e que com o tempo e ganho da maturidade devem ser superadas. Contudo, quando a frequência e intensidade se prolongam no tempo poderá transformar-se num problema comportamental que poderá conduzir a alterações do próprio desenvolvimento8.

Deve também procurar ajuda profissional se ao longo dos anos a criança mantém ou intensifica comportamentos de impulsividade, de desafio das figuras de autoridade, irrequietude, se se zanga facilmente ou sem motivo, se aborrece as outras pessoas de forma propositada ou se culpa os outros pelos seus erros3,1.



Referências:

1- American Psychiatric Association (2002). Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais. Washington: American Psychiatric Association.

2- Bath, H. (1994). Temper tantrums in group care. Child and Youth Care Forum, 23(1), 5-27.

3- Campbell, S. (1997). Behavior problems in preschool children. New York: The Guildford Press.

4- Cordeiro, M. (2009). O Livro da Criança do 1 aos 5 anos. Lisboa: Esfera dos Livros.

5- Cordeiro, M. (2011). O Grande Livro dos Medos e das Birras. Lisboa: Esfera dos Livros.

6- Greene, R. (2010). The explosive child: a new approach for understanding and parenting easily frustrated, chronically inflexible children. New York: Harper Collins Publishers.

7- Mireault, G., Rooney, S., Kouwenhoven, K. & Hannan, C. (2008). Oppositional behavior and anxiety in boys and girls: a cross-sectional study in two community samples. Child Psychiatry and Human Development, 39, 519-527.

8- Queirós, O., Goldschmidt, T., Almeida, S. & Gonçalves, M. (2003). O outro lado das birras. Análise Psicológica, L(XX), 95-102.

9- Urra, J. (2009). O pequeno ditador: da criança mimada ao adolescente agressivo. Lisboa: Esfera dos Livros.

10- Webster-Stratton, C. (2005). The Incredible Years: a trouble-shooting guide for parents of children aged 2-8. Seattle: The Incredible Years.


Andreia Vieira
Psicóloga NeuroAV



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